7/12

6/12

Dei com a redação de meu pai durante a manutenção dos e-mails, homenageando o velho amigo e também padrinho de minha irmã, uma figura cuja tenacidade não permite pretéritos:

JOÃO PINHEIRO DE FREITAS

“… aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração”. (Mateus, 11:29)

Itaú ou, no idioma dos índios paiacus, pedra preta – denominação condizente com a agrestia do lugar – é uma cidade da zona oeste do Rio Grande do Norte, a 382 km de Natal, cuja população atual gira em torno de 7.000 almas.

Aí nasceu Pinheiro aos 10 de janeiro de 1929, embora conste no registro civil o dia 27 de janeiro. Seu pai, o agricultor Joaquim Fernandes de Freitas, já falecido, foi casado três vezes. Com a primeira mulher, Raimunda Pinheiro Maia, teve três filhos: Maria Petronila, João (o nosso Pinheiro) e José. Com a segunda, mais três: Manoel, Wilma e Antonio. Completando a prole, a terceira esposa ainda lhe deu Luzia, Maria Francisca, Francisco de Assis, José Maria e Maria Augusta. Onze filhos, portanto.

Aos 12 anos, Pinheiro foi acometido de grave enfermidade que o deixou paralítico das pernas. Possivelmente, poliomielite. Para locomover-se passou a dispor de um tosco carrinho, na verdade uma simples tábua presa a dois eixos, com rodas também de madeira. Era ali que passava quase o dia todo, deitado de bruços.

Esse quadro permaneceu inalterado nos cinco ou seis anos seguintes.

As limitações a que ele estava submetido não impediram, porém, a revelação de um verdadeiro dom, o desabrochar de uma invulgar aptidão natural para o desenho. Aquele garoto, que nunca recebera aula da matéria, aos poucos foi se mostrando senhor das linhas, das proporções e dos sombreados, sendo capaz de reproduzir admiravelmente – a lápis, pena ou pincel – as mais diversas formas: figuras, paisagens, o que fosse. Mas o seu carro-chefe, aquilo que a todos mais arrebatava, talvez pela incrível riqueza de detalhes, era a cópia da cédula de cem cruzeiros, a moeda da época. De tão perfeita, seria quase impossível distingui-la a olho nu de uma nota verdadeira, não fosse a diferença de textura entre os respectivos papéis.

Certamente, o projeto de Deus para aquele jovem previa mudanças. Não haveria de deixá-lo por toda a vida submetido a tantas e tão severas privações. O instrumento de Sua vontade veio a ser uma prima em segundo grau de Pinheiro, a professora Joaninha Bessa. De passagem por Itaú, sensibilizada e comovida com o que pôde ver, ela decidiu empenhar-se com afinco numa verdadeira operação de resgate.

Dona Joaninha logo percebeu que, bem trabalhado, o próprio talento de Pinheiro seria a alavanca de que ela precisava para alçá-lo a uma vida melhor.

Antes de tudo, procurou convencê-lo acerca de um ponto, para ela fundamental, no enfrentamento daquele infortúnio. Era preciso descartar o carrinho. Ademais de desconfortável, a posição horizontal se traduzia numa humilhação. A verticalização, além de tudo, por sua carga semiológica, revitalizaria nele o amor-próprio. Na consecução desse objetivo, a dificuldade estava em aprender a caminhar com o auxílio de bengalas ou muletas.

Foram necessárias semanas, meses talvez, de exercício continuado. Sempre atenta, ela o encorajava nos momentos de desânimo, para que não desistisse. Certo é que, vencido o temor e a hesitação dos primeiros dias, com ar triunfal e justificável alegria, Pinheiro finalmente readquiriu o equilíbrio necessário para andar. A princípio, com bengalas; depois, com muletas. Dá para imaginar o efeito dessa reviravolta, em termos de elevação da sua auto-estima.

Paralelamente, Dona Joaninha buscou propiciar-lhe horizontes que Itaú, evidentemente, não oferecia. Nem mesmo Mossoró, a segunda maior cidade do Estado. Era mister levá-lo para Natal, o que viria a ser viabilizado com a obtenção, junto aos Irmãos Maristas, de uma vaga no internato do Colégio Santo Antonio.

A moradia no colégio, embora por curto período, além do salutar convívio intelectual com os religiosos, possibilitou a Pinheiro cursar as primeiras séries do ginasial.

Dona Joaninha não descansava. Em decorrência de uma persistente peregrinação divulgando os trabalhos dele, sobretudo junto a pessoas com expressão social e política, ela viu, finalmente, as portas se abrirem ao seu pupilo.

Assim é que, após breve prestação de serviços na Base Aérea de Parnamirim (1953), por intercessão de um conterrâneo ilustre, o então Vice-Presidente da República Café Filho – que se tornaria Presidente, em virtude do suicídio de Getúlio Vargas – Pinheiro foi admitido, em 1954, como Desenhista do Hospital dos Servidores do Estado, órgão da estrutura do então Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado – IPASE. Daí, a vinda dele para o Rio de Janeiro, indo morar numa vaga na Rua do Teatro 17.

O SERVIDOR PÚBLICO.

Muito mais que uma segunda casa, o HSE tornou-se, por assim dizer, sua própria casa. Não porque fosse a residência dele, mas por um vínculo de ordem sentimental.

Nos seus 36 anos de serviço, foi sempre o primeiro a chegar e o último a deixar o setor de Fotografia, onde era lotado. Sentia-se orgulhoso de trabalhar ali, pois aquele não era um simples hospital, mas o Hospital, instituição renomada e de grande prestígio, tanto pela elevada qualificação do corpo médico, quanto pela modernidade dos equipamentos; sem esquecer sua modelar administração. Não era raro encontrar-se, entre os pacientes internados, algum parlamentar ou Ministro de Estado, sendo certo que por lá passaram, pelo menos, dois presidentes da República.

Pinheiro chegou a beneficiar-se dos serviços do HSE, em duas ou três cirurgias, uma delas no campo da ortopedia, da qual resultou alguma melhora no tocante aos movimentos.

“Este é um lugar que, por infelicidade, se procura e, por felicidade, se encontra” – a frase feliz de Alcides Carneiro, que se lê no saguão de entrada do HSE, tantas vezes citada por Pinheiro, para este tinha um significado além da retórica.

À época, ainda não se cogitava a unificação dos institutos que resultaria no INAMPS e, depois, no atual INSS. Obviamente, eram outros tempos de previdência social, de saúde pública e de Brasil.

Discreto nas atitudes, suave e ameno no trato com as pessoas, Pinheiro tornou-se logo uma figura, não somente conhecida, mas querida da maioria dos colegas. A qualidade do seu traço, claro, contribuiu para uma certa notoriedade, sobretudo entre os médicos, que lhe encomendavam trabalhos até para atividades extra-hospitalares, como palestras, aulas, congressos etc.

A necessidade de atender à demanda obrigava-o, muitas vezes, a varar madrugadas. Mas ele o fazia de bom grado, pois gostava do ofício de desenhar.

O SER HUMANO.

Embora apreciasse literatura, com ênfase na poesia, eram as artes plásticas que mais o seduziam.

Botafoguense convicto – desde os áureos tempos de Didi, Garrincha e Nilton Santos – Pinheiro demonstrava interesse por, praticamente, todos os esportes, assim como jogos em geral.

Nas horas de lazer, quando não se dedicava à leitura (poesia, principalmente), poderíamos encontrá-lo jogando damas, dominó ou xadrez. Mas o principal hobby era o baralho, sendo capaz de disputar seguidas partidas de buraco, até mesmo noite a dentro.

Os encantos da cidade grande, que, sem dúvida, o conquistaram, não foram, porém, suficientes para desvinculá-lo de suas raízes. A cada período de férias lá ia ele rever parentes e amigos, em Itaú. Mas, ao final, com a mesma avidez com que partira rumo à terra natal, voltava à de adoção, sequioso de rever o Rio com suas paisagens inigualáveis, e de reentrar no micro universo do HSE. De modo que esses dois liames, como forças eqüipolentes, deixavam Pinheiro rigorosamente dividido: aqui, saudoso de lá; lá, saudoso daqui.

De temperamento calmo e tranqüilo, jamais esboçou inconformismo em razão da deficiência física ou em face de qualquer adversidade. Seu otimismo não comportava queixumes. Nunca teve desentendimento com quem quer que fosse. Não extravasava aborrecimentos, nem guardava mágoas. Eventuais agravos eram facilmente esquecidos.

A generosidade, sem dúvida, figurava entre os seus atributos mais marcantes. Era do tipo que não sabia dizer não, estando sempre disposto a ouvir e a ajudar a quantos o procurassem, o que de regra fazia com a maior discrição. Preocupava-se particularmente com os irmãos, sobrinhos, parentes em geral, cujas dificuldades, na medida dos seus limitados recursos, sempre se esforçou por minorar.

Natural, pois, que granjeasse ampla simpatia, adquirindo não somente amigos como algumas namoradas, com as quais, aqui e ali, se enredava nas ilusões da paixão.

Freqüentemente, só percebemos a importância ou grandeza de certas pessoas, após nos distanciarmos no tempo. Afinal, como mostrou Marcel Proust, é mesmo o tempo que nos oferece a possibilidade de, através de novo escrutínio sobre o passado, enxergarmos aquilo que nos escapou da primeira vez.

Mas, no caso do Pinheiro, parece que esse distanciamento não se fez necessário. Pois, quem teve o privilégio de com ele conviver, a não ser que lhe faltassem olhos de ver, pôde notar perfeitamente que se tratava de um ser especial.

Enfim, dotado de espírito doce e cativante como poucos – ainda que a sua personalidade não deva ser reduzida a este aspecto, apenas – ele foi de fato manso e humilde de coração. E do coração faleceu na sua querida Itaú, em 20 de junho de 2000.

Rio, 06.06.2005

A nova parcial:

5/12

O trabalho puxa pela hora, e, próximo à meia-noite, ouço a porta de uma sala vazia – vizinha – bater. Pouco depois, trancando o escritório, encontro o porteiro esbaforido, suado.

– Opa… ‘tava arrumando a sala pra visitarem amanhã.

Ainda bem que a poeira não geme.

Zooey Deschanel e sua pele alva, dos grandes olhos. Essa é das minhas.

4/12

A questão cervejeira nacional é quase como a automobilística há quinze anos, um mercado fechado e monopolizado que dificulta a compreensão da pobreza oferecida regularmente – isso para citar as chamadas “melhores”, porque o grosso do caldo nem vale menção.

A mulher vem no metrô, abrindo e mordendo o bombom em “capítulos”. Tudo bem. Eis que ela pega a metade restante e embrulha, e guarda.

Eu devo ser um ogro.

3/12

Três dias de um desejo pelo pastel de rua levaram-me à infeliz experiência do chinês vizinho, um mal estar garantido pelas vinte e quatro horas seguintes. Deve ser a língua: eu pedi queijo, ele entendeu diesel.

Há conivência em excesso para com o atraso. Devemos todos deixar de aguardar terceiros, permitindo que a sua raiva ou deseducação diante do inesperado sejam o mais fino combustível de nossas gargalhadas.

E que eles percam e sofram por conta. Até aprender.

2/12

– Talvez porque seja para a grande massa…
– Grande massa é uma lasanha de 5 quilos.

1/12

Estamos no ano 2005 depois de Cristo. Toda a Cidade foi ocupada pelo calor… Toda? Não! Um irredutível cidadão ainda resiste ao invasor. …

Uma bela trocadora de ônibus pode ser sintomático.

Ou fetiche.

« Página Anterior
 

Powered by WordPress